Morar em um país diferente gera uma sensação constante de se encontrar entre.
Sou brasiliera ainda, ou será que agora sou estrangeira? Ou ambos?
Quando retorna ao Brasil, uma parte sua se sente pertencente, reeconhece as ruas, as pessoas, os lugares onde costumava ir.
A árvore que você observava na sua rua cresceu. O vizinho que fritava cebola e alho todo dia às 11:45 se mudou, o bar que costumava ir foi reformado. Os amigos não se encontram mais com tanta frequência, alguns assuntos parecem não te interessar mais. Mas, ao mesmo tempo, a piada do seu tio continua sendo a mesma e você ri toda vez que ele conta. Aquele amigo ainda usa a expressão que só vocês entendem, o abraço de alguém querido continua trazendo a sensação de acolhimento e sua comida preferida ainda tem o mesmo sabor.
Algumas coisas mudaram, outras permaneceram. Mas a sensação de ser conhecido, de ser familiar, ainda habita ali.
Você volta para o novo lugar onde mora e percebe que ali também existem coisas familiares.
Você de fato está vivendo nesse lugar, criou uma rotina, com pessoas e lugares novos que passaram a compôr sua identidade. Pequenas coisas que, no início pareciam sem importância, começam aos poucos a ocupar um espaço na sua vida, como os novos amigos ou o café que frequenta antes do trabalho. E é aí que as coisas podem ficar um pouco difíceis de acompanhar.
Você visita o Brasil e sente falta da rotina que construiu fora. Volta e sente falta de coisas que ficaram no Brasil. Em uma viagem, pode se perceber estrangeiro no próprio país. Ao retornar, pode continuar se percebendo sempre como um imigrante.
Tudo isso pode acontecer sem que você necessariamente perceba o que exatamente mudou e quando. Pode reconhecer uma parte de si em cada um dos dois lugares e ainda encontrar outras que não cabem completamente em nenhum dos dois.
Talvez, com o tempo, você passe a perceber o que cada lugar se tornou e desperta na sua vida. Que ser brasileira e estrangeira não são identidades contrárias, mas coexistentes.
Pouco a pouco, entende e encontra maneiras próprias de se relacionar com cada versão, descobrindo como criar raízes na vida que está contruindo, independente do espaço onde se encontra.
Não mais entre, mas já em meio e envolta nesses dois lugares.